Do conhecimento universitário ao conhecimento pluriversitário (p. 39 a 44)
Os desenvolvimentos da última década colocam desafios muito exigentes à universidade e especificamente à universidade pública. (p. 39)
Penso que na última década se começaram a alterar significativamente as relações entre conhecimento e sociedade e as alterações prometem ser profundas ao ponto de transformarem as concepções que temos de conhecimento e de sociedade (...) a comercialização do conhecimento científico é o lado mais visível dessas alterações. (p. 40)
O conhecimento universitário – ou seja, o conhecimento científico produzido nas universidades ou instituições separadas das universidades foi ao longo do século XX, um conhecimento predominantemente disciplinar cuja autonomia impôs um processo de produção relativamente descontextualizado em relação às premências do quotidiano das sociedades. (p. 40)
A universidade produz conhecimento que a sociedade aplica ou não, uma alternativa que, por mais relevante socialmente, é indiferente ou irrelevante para o conhecimento produzido. (p. 41)
Ao contrário do conhecimento universitário descrito no parágrafo anterior, o conhecimento pluriversitário é um conhecimento contextual na medida em que o princípio organizador da sua produção é a aplicação que lhe pode ser dada (...) É um conhecimento transdisciplinar que, pela sua própria contextualização, obriga a um diálogo ou confronto com outros tipos de conhecimento (p. 41)
O conhecimento pluriversitário tem tido a sua concretização mais consistente nas parcerias universidade-indústria e, portanto, sob a forma de conhecimento mercantil. Mas, sobretudo nos países centrais e semiperiféricos, o contexto de aplicação tem sido também não mercantil, e antes cooperativo, solidário. (p. 42)
À medida que a ciência se insere mais na sociedade, esta insere-se mais na ciência. (p. 43)
REFORMAS DA UNIVERSIDADE: BREVE HISTÓRICO (p. 111 a 134)
A Universidade Medieval
A instituição de ensino que, no Ocidente, veio a ser nomeada como ‘universidade’ emergiu nos tempos medievais (Santos, 1995). As primeiras universidades foram fundadas na Itália e na França, no século XI. Essas universidades pioneiras eram abertamente escolásticas, absorvendo o papel social das instituições religiosas que haviam sido sua semente. (p. 112)
A universidade medieval herdou uma série de práticas da instituição religiosa hegemônica, a Igreja Católica Romana. (p. 113)
A arquitetura curricular da universidade medieval era bastante simples, em tese articulando todo o saber legitimado da época em um ciclo básico composto pelo ensino das sete artes liberais, divididas em dois blocos: o trivium (Gramática, Retórica e Dialética) e o quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música). (p. 114)
Em síntese, a universidade medieval chegava à era moderna com uma estrutura curricular rígida, composta por duas Faculdades (Teologia e Direito), a depender da maior ou menor influência da religião sobre o Estado. (p. 115)
A Europa pós-Renascimento, em meio às turbulências políticas que se seguiram à emergência do novo modo de produção que depois foi batizado de capitalismo, testemunhou e nutriu a criação de um paradigma universitário pós-escolástico, a universidade da arte-cultura. (p. 115)
Na segunda metade do Século XVIII, a Universidade parecia superada e dispensável... (p. 117)
Contexto da Universidade Social:
A globalização ocorre em paralelo a processos macroeconômicos de grande monta: avanços em tecnologia de informação, transnacionalização de empresas, migração da força de trabalho, entre outros.
Ao mesmo tempo, e talvez paradoxalmente, a globalização vincula-se a severas reduções no bem estar social de populações humanas. Aumento em desigualdades entre países e grupos sociais, desemprego estrutural, crescimento de movimentos nacionalistas e fundamentalistas, intensificação de conflitos étnicos, não observância de direitos humanos, agressões ambientais, deterioração do espaço urbano e escalamento da violência, tudo isso tem sido imputado à globalização. (p. 165)
No plano da ideologia, observa-se um vasto processo de padronização internacional, submetendo arte & cultura, comportamentos e bens simbólicos locais a valores estéticos estrangeiros. No plano da ciência & tecnologia, redes de centros de pesquisa, universidades, empresas e governos têm sido instrumentais em estabelecer padrões globais de internacionalismo acadêmico. Tais padrões são dependentes de fontes centrais de legitimação cultural, científica e tecnológica localizadas nos países ditos desenvolvidos. (p. 166)
O campo da educação enquadra-se neste contexto. Na sociedade do conhecimento, a Universidade adquire lugar de destaque para imaginar e realizar o presente e o futuro das nações. (p. 167)
O que é uma universidade e qual sua origem como instituição?
Será que o Brasil possui uma “verdadeira” universidade?
Se a universidade brasileira for de fato contemporânea, estará pronta para a
prospecção do Século XXI? (p. 168/169)
A universidade de pesquisa foi criada com o mandato específico de produção de conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico necessários para o modo de produção capitalista. (p. 169)
universidades escolásticas e escolas superiores de arte-cultura, retóricas e ritualizadas, ainda são dominantes
em muitos países ditos em desenvolvimento. (p. 171)
Os modelos conhecidos – a universidade guardiã da doutrina, a universidade encarregada da educação das elites, a universidade a serviço da tecnologia e da produtividade – podem não se ajustar bem aos novos papéis impostos por uma sociedade cada vez mais rapidamente mutante. (p. 172)
Fichamento do texto em:
SANTOS, Boaventura de Sousa; ALMEIDA-FILHO, Naomar. A Universidade no Século XXI - Para uma Universidade Nova. Coimbra: Almedina, 2008. Disponível em: https://ape.unesp.br/pdi/execucao/artigos/universidade/AUniversidadenoSeculoXXI.pdf. Acesso em 08.jul.2017 (p. 39 a 172)
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