O prefácio do livro apresenta a Universidade num contexto extremamente hostil, de crise econômica, política e social em escala mundial.
Mas, com efeitos colaterais, sem previsão nem respostas, o social desafiou o político, apoiando novos atores objetores do sistema internacional. (p. 11)
A quarta dimensão da universidade – depois de investigar, ensinar, e gerir o saber e o saber fazer, é reconstruir o mundo novo, porque o Cisne Negro da viragem do milénio anarquizou o velho e exige a identificação, salvaguarda, fortalecimento, e estratégia inovadora das instituições que guardam o poder do verbo, que faremos sobreviver para organizar o caos. (p. 12)
Provavelmente devemos reconhecer que já perdemos tempo, mas assumir que o devemos recuperar. E para isso necessitamos de dimensão, sustentabilidade, independência, valores, e vontade de aceitar e reformular o património secular que é nosso. Estaremos à altura da nossa quarta dimensão. (p. 16)
1.1. A génese da universidade
A universidade foi inventada na Europa Ocidental há quase mil anos. (p. 27)
Não é possível ignorar a existência de centros de conhecimento que em muitos aspectos incorporavam as principais características daquilo a que hoje, (...) seria possível designar como universidade. (p. 27)
Também a Biblioteca de Alexandria, fundada no início do século III A.C., maior centro de conhecimento do seu tempo até à total destruição ordenada em 391 D.C. pelo bispo Teófilo durante o reinado do imperador Teodósio, tem que ser considerada pelo menos precursora da universidade moderna. (p. 28)
No ano de 387 A.C. (...) Platão fundou uma escola, hoje conhecida por Academia de Platão ou Academia de Atenas. (p. 29)
O mais conhecido e influente dos discípulos de Platão, Aristóteles, fundou ele próprio uma escola similar, o Liceu, em 335 A.C. (p. 29)
Mas é nos mosteiros medievais que a obra de Aristóteles, conservada e compilada pelos filósofos árabes, é estudada e, numa versão ajustada à doutrina cristã, ensinada no movimento intelectual que foi celebrizado como a Escolástica. (p. 29)
Bolonha (no ano de 1088), Paris (em 1090 ou 1170) e Oxford (em 1096) foram os centros urbanos medievais onde se organizaram essas primeiras instituições. (p. 30)
1.2. A universidade de ensino
As universidades expandiram-se por toda a Europa Medieval de tal forma que, no final do século XIII, já havia quinze. Em 1500 esse número chegava a cinquenta (p. 32)
Inicialmente destinadas a guardar e a proteger os valores da civilização (cristã, na sua origem europeia), elas viram essa função, reinterpretada pelo tempo, transformar-se em princípio instituinte, no quadro do qual a educação superior se assumiu como a sua primeira missão. (p. 32)
O julgamento e a execução de Giordano Bruno, frade dominicano, filósofo e professor itinerante de várias universidades, ocorrido em 1600 na cidade de Florença, marcam o fim do modelo de universidade medieval. (p. 33)
1.3. A grande crise da universidade
A crise da universidade pós-renascentista, que achamos pertinente chamar de universidade vocacional. (p. 34)
Na Inglaterra e na Alemanha, por outro lado, a crise da universidade é superada pela ampliação do seu papel político de centro de produção de conhecimento e de formação de recursos humanos para as ciências e tecnologias. (p. 35)
A Reforma Pombalina da Universidade, constituiu, a par da laicização do ensino universitário e em complemento dela, um momento de viragem com consequências importantes em todo o espaço de língua portuguesa. (p. 36)
É nesta universidade que vêm obter formação, desde o início da colonização mas sobretudo a partir do terceiro quartel do século XVIII, sucessivas gerações de jovens nascidos no Brasil, proporcionando a consolidação de uma elite de intelectuais, cientistas e técnicos que desempenhou um papel importante no conhecimento, formação e desenvolvimento da grande nação brasileira. (p. 37)
1.4. A universidade iluminista
o primeiro movimento de reflexão e de sistematização teórica na direção do que se poderia chamar de reforma moderna da universidade só se iria encontrar, no entanto, já perto do final do século XVIII (p. 37)
Kant anteviu a primeira reforma universitária, ao denunciar os últimos resquícios do caráter sacro da universidade, bem como a ingerência do Estado na sua autonomia. (p. 37)
Antecipando a importância do primado da razão em todas as esferas de conhecimento humano, o texto kantiano propõe que a instituição universitária deixe de obedecer a princípios religiosos e políticos e que, enfim, se constitua como espaço livre, onde não haja soberano ou pontífice para atestar verdades mesmo nas faculdades superiores. (p. 38)
Divulgado em 1810, o Relatório Humboldt16 estabelecia o primado da pesquisa, priorizando no ensino superior a outrora faculdade inferior e realizando, assim, a proposta kantiana. Baseava-se em uma premissa clara e muito simples: “a base da verdade deverá ser a pesquisa científica”. (p. 39)
...a pesquisa afirma-se como eixo de integração do ensino superior e fonte de credenciamento do que deve ser ensinado. A universidade chama a si o mandato institucional e político sobre a responsabilidade da produção do conhecimento, que passa a constituir a sua segunda missão.
No entanto, esse modelo não é o único que se consolida a partir do século XIX. Em França, ainda no final do século XVIII, os enciclopedistas propõem um modelo de formação superior em contraposição à velha universidade corporativa, eclesiástica e aristocrática. (p. 40)
A organização do ensino superior preconizada por Cabanis e concretizada durante o período napoleónico dispõe de faculdades dotadas com grande autonomia e capacidade para decidirem as disciplinas e os cursos que ministram. (p. 40)
A universidade de pesquisa inspirada na Reforma Humboldt consolidou-se na Alemanha e no Reino Unido. (p. 42)
1.5. A universidade desce da Torre de Marfim
A terceira missão, assumida pela universidade, vincula-se a uma tomada de consciência do seu papel de instituição indutora do desenvolvimento económico e social, através da inovação tecnológica, e também promotora de mudança social e cultural. (p. 45)
Nessa perspectiva ampla, que se poderia genericamente designar por compromisso social da universidade, faz sentido incorporar na terceira missão os pontos da agenda universitária que têm a ver, por exemplo, com a inclusão social, com a sustentabilidade, com o ambiente e com a cultura. (p. 45)
1.6. Cenário contemporâneo da universidade no mundo
Em 1999, ministros da educação de 18 países europeus assinam em Bolonha um protocolo que inicia o processo de criação do Espaço Europeu de Ensino Superior, comumente conhecido como o Processo de Bolonha.
Na prática, esta iniciativa significou a existência de consenso político para a adoção de um regime compatível de ciclos, estruturalmente equivalente ao modelo norte-americano. (p. 46)
O modelo norte-americano e o modelo europeu são harmonizados pelo Processo de Bolonha. (p. 48).
Não é tarefa fácil encontrar uma definição mais elegante, ou menos palavrosa, para o conceito a que nos estamos a referir – a diplomacia cultural universitária – a qual, conferindo cimento e significado às práticas de internacionalização, as pode transformar na quarta missão da universidade. (p. 160)
SANTOS, Fernando Seabra; FILHO, Naomar de Almeida. A Quarta Missão da Universidade:
Internacionalização Universitária na Sociedade do Conhecimento. Imprensa da Universidade
de Coimbra / Editora UnB. Coimbra, 2012. (p. 01 a 48)